Prato Principal

Paneleiras de Goiabeiras

tradição e sabor Capixaba

Por - Joenio Dessaune.

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Panela de barro - Tradição secular e indispensável na gastronomia capixaba. Foto: Rede Artesol.

Segundo estudos arqueológicos realizados na região de Goiabeiras, bairro do município de Vitória, Espírito Santo, o ofício é antigo e de origem indígena. E, mesmo após passar por uma intensa urbanização, o local mantém a tradição transformar o barro em panelas, e por isso o nome Paneleiras de Goiabeiras. Elas executam uma atividade praticamente feminina e tradicional com uma técnica ancestral que vem sendo ensinada pelas artesãs de mãe para filhas, netas e sobrinhas há gerações.

 

Em 2002, o ofício das Paneleiras de Goiabeiras foi reconhecido como patrimônio imaterial pelo Iphan (Instituo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no Livro de Registro dos Saberes. Segundo as artesãs, esse status garante a salvaguarda da técnica, uma vez que a legitima junto aos órgãos públicos responsáveis.

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Moqueca em panela de barro, tradição e sabor capixaba. Foto: Banco de Imagens

A produção

 

O barro utilizado é retirado exclusivamente do Parque Natural Municipal Vale do Mulembá, que é uma Unidade de Conservação (UC) protegida por lei.  As panelas produzidas pelas paneleiras dispensam o torno e forno, são modeladas à mão e a queima é realizada em fogueiras a céu aberto. O tanino (tinta) utilizado na queima é proveniente da casca do mangue-vermelho (Rizophora mangle), árvore encontrada no manguezal vizinho, e que colore de negro o barro e garante ótima resistência, uma das características mais valorizadas das panelas de goiabeiras onde as deliciosas e típicas moquecas capixabas são preparadas.

 

O processo de trabalho é bem dividido e conta com quatro funções distintas: o escolhedor de barro, a paneleira, a alisadora e o tirador de panela. Cada um cumpre sua função em cada etapa da produção. O escolhedor de barro colhe, faz a limpeza e deixa o barro pronto para a modelagem que é realizada pelas paneleiras. A alisadora é responsável por alisar a panela depois de seca utilizando uma pedra chamada seixo rolado, o que dá brilho à peça e a prepara para a queima. Após a queima é realizado o açoite, quando o tanino do mangue-vermelho é aplicado com a vassourinha de muxinga (arbusto típico e resistente a alta temperatura) sobre a peça ainda em brasa.

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Paneleira realizando o açoite com a vassourinha de muxinga. Foto: Rede Artesol

Cuidado com o Meio Ambiente

 

A relação de cuidado e proteção com o meio ambiente é o que mantém viva e ativa a tradição das Paneleiras. É preciso conhecer o terreno, saber de onde extrair o barro e reconhecer o mangue-vermelho. A técnica de mais de quatro séculos exige dos habitantes atuais atenção e cuidado, pois, segundo estudos de especialistas, o barro pode se acabar em poucas décadas se o manejo não for equilibrado ou se novas fontes não forem encontradas.

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O Mangue - Local de onde é extraído o tanino do mangue-vermelho tem vida protegida por lei, assim como o Parque Municipal Vale de Mulembá. Foto: Banco de dados.

A Associação

A Associação das Paneleiras de Goiabeiras conta hoje com mais de 60 associadas e foi fundada no ano de 1987 e é responsável pela a organização do espaço do galpão e divisão das funções na fabricação das panelas, porém, como já dissemos, o ofício iniciou-se muito antes da fundação. A inauguração do Galpão da Associação ainda nos anos 90, localizado à beira do manguezal, foi um marco para as Paneleiras. Ainda que não abrigue todos os associados, o local, além de ser ponto de encontro e de produção, é uma importante vitrine para os turistas que visitam e desejam comprar as panelas.

Com a crise econômica provocada pelo COVID-19 a renda das paneleiras caiu drasticamente, inclusive com o barracão tendo que ser fechada, já que muitas são idosas, e, sendo do grupo de risco, não podia sair para trabalhar, e com isso precisando contar com a ajuda da sociedade e de organizações da sociedade civil. O Grupo chegou a participar do programa Gol - Aproximando Distâncias que foi criado para promover a comercialização do artesanato brasileiro e estavam com um bom número de pedidos, porém a logística para o transporte dificultou a dinâmica de comercialização nacional, devido ao risco do transporte. Atualmente, o barracão de produção das paneleiras se encontra aberto e em funcionamento, porém, o enfraquecimento do turismo na pandemia torna o fluxo de  vendas muito mais baixo que em períodos normais.

Rede ArteSol

 

A associação integra a Rede Artesol, um projeto que promove a conexão entre os agentes da cadeia produtiva do setor artesanal, mapeando e divulgando técnicas e tradições culturais e estimulando novos negócios por meio da plataforma artesol.org.br, que funciona como uma qualificada vitrine para a difusão do artesanato brasileiro.

Serviço

  • Endereço: Rua das Paneleiras, n°55, Bairro Goiabeiras;

  • Telefone: (27) 3327-0519;

  • Horário de Funcionamento: de segunda-feira a sábado, das 08:00 às 18:00 horas; domingo, das 09:00 às 15:00 horas.

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O Galpão - Fachada do galpão da Associação das paneleiras de Goiabeiras. Foto: Internet.